terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mudança de Planos

Mulher, 31 anos, curso superior completo, desempregada. E agora José? Depois de longas caminhadas, pedaladas e dirigidas em frente a busca por um emprego, descobri que estava velha, sim velha para um mercado tão competitivo. Herdeira de um bom salário, percebi que jamais conseguiria de novo ganhar tão bem, pelo menos não a curto-prazo, talvez nem a médio. Tirei a dúvida da minha vida. Tomei uma decisão!
Questionei-me: o que não é ser empregada de uma grande empresa multinacional como eu era? Que coisa difícil de imaginar naquele momento! Decidi daí em diante, arregaçar as mangas porque jeito não tinha mesmo! Estava no beco sem saída.
Como morava numa casa enorme, bonita e bem localizada fruto de uma vida de trabalho regrada, constante e particular, iria alugar parte dos quartos da mesma para as pessoas que trabalhavam no aeroporto de Congonhas e comecei a divulgação nos meios pertinentes.
Mas isso não tem nada de inovador, não é mesmo! Meu irmão tirava onda da minha cara dizendo que eu ia ser a Rainha dos Quartinhos!
Acontece que se eu dependesse de alguém desse público de aeroporto, continuaria a passar necessidade. Foi quando encontrei um nicho de mercado, através de pesquisas na internet: o de mochileiros estrangeiros. Divulguei, a casa começou a ficar cheia aos pouquinhos, era gente de Liverpool, de Sidney, de Berlin, enfim de tudo quanto era parte do mundo. Persistir a achar esse nicho foi importante senão teria desistido logo de cara, mas eu como pessoa me achava inteligente, perspicaz e muito auto-confiante. Nunca tive dificuldades neste ramo porque desde pequena falava inglês e na fase adulta já havia aprendido com muito louvor o espanhol. Mas aquele sotaque de alguns ingleses era particularmente difícil de entender no começo. Com o tempo fui ganhando mercado, experiência e os brasileiros também começaram a chegar. Sou hoje dona do domínio camaecafedamanha.com.br e bedandbreakfast.com.br um negócio inovador visto que nós brasileiros somos acostumados a hotelaria convencional quando viajamos. Ficar hospedados na casa de alguém não é lá algo muito comum como se vê em toda a Europa. Cuidamos de nosso negócio eu, meu marido, uma outra sócia, 3 funcionários e várias estagiários dependendo da época do ano. Ainda hoje mantenho alguns quartos em casa alugado para quem quiser usufruir de um excelente serviço de anfitriã.
Ai vi que os clientes passavam por São Paulo 1 ou no máximo 2 dias e sempre me pediam para fazer reserva no Rio de Janeiro por 5, 7 ou 10 dias, as vezes, até mais. Opa! Aí tem outra oportunidade. Eu vi, eu vi, eu vi! Com a cara e a coragem necessária para enfrentar desafios e enxergar além das fronteiras de uma cidade de pedra, partimos a procura de um imóvel na cidade Maravilhosa assim bem de frente para o Cristo. Encontramos um prédio velho, caquético, feio que doía, caindo aos pedaços onde havia teto e chão e digamos mais nada. Construímos tudo do zero. Mal estava aberta esta segunda unidade, tampouco havia alvarás de funcionamento e já havia cliente dormindo no local. Fomos com a galera, a turma do bem, o pessoal jovem. Desde o primeiro dia, o albergue do Rio de Janeiro só tem dado lucros, o investimento voltou com menos de 2 anos e continuamos crescendo. Abrimos o terceiro albergue em Paraty foi quando a coisa começou a ficar feia. Não deu certo. Acho que já tínhamos coisa demais para tomar conta e o tempo era bem escasso. Mas aprendemos com esta queda. Abrimos também um restaurante no Rio que em menos de 1 ano afundou de frente para o mar. Comida definitivamente não era a minha praia. Não mesmo! Mas o albergue continuava a ir bem e crescendo. Alugamos o segundo andar do prédio e ampliamos. Tudo do zero! Tudo de novo, esperança e otimismo.
Estava indo bem na vida profissional quando surge uma doença grave, um Câncer. Nossa como eu linda, jovem que quer ser rica tem uma neoplasia aos 39 anos! Uau, achei que iria morrer, na verdade tinha certeza disso. Eu iria morrer. Iria! Passado! Fiquei inchada, gorda, careca, vomitando e tirando a casca velha, surgindo de dentro de mim uma nova mulher. Descobri que eu vivia para trabalhar e para correr atrás de dinheiro. Ai, ai ai! Na época da descoberta eu não tinha R$2.000 reais para pagar um procedimento. Vi que precisava mudar, reprogramar quem eu era por dentro porque por fora a quimioterapia já tinha feito o estrago mas por dentro me dava uma chance de viver. Renasci das cinzas é verdade, tive que ficar 6 meses afastada do trabalho, mas nunca na verdade me afastei . Fazia o que conseguia entre uma e outra ida ao banheiro. Câncer não é uma doença para os fracos. Venci. Hoje estou há 4 anos livre da doença, livre de todos os preconceitos e renovada. Eu sou uma nova mulher! Sou mesmo! A única diferença entre eu e uma pessoa comum como você, por exemplo, que está lendo esse texto é que sei que tenho apontado para a minha cabeça um gatilho que a qualquer momento pode ser disparado e a maioria das pessoas continua achando que nunca vai morrer.
Ah voltando ao albergue. Continuamos crescendo, legalizamos a empresa. Em 2003 havia 7 albergues no Rio de Janeiro. Em 2010, são mais de 100. Continuamos vivos, mudamos estratégias a todo instante. Se o plano A der errado, partimos para o B, para o C e nunca chegamos ao D não, porque um deles sempre deu certo! Sou otimista! Descobrimos que se tivermos excelência em atendimento ao cliente vamos longe, muito longe. Aprendi também que temos que ser tolerantes e pacientes, claro que isso não é possível 100% do tempo e quem garantir maior percentual caminha um degrau a mais. Acima de tudo honestidade é fundamental. Agora em 2010 acabamos de inaugurar um novo albergue porque 2014 e 2016 estão aí e no Rio há uma falta enorme de leitos. É uma cidade geograficamente difícil, pois já não há mais espaço físico e o aumento constante e crescente da especulação imobiliária dificulta qualquer ampliação de um investidor pequeno. Sobreviver num mercado competitivo como se tornou os albergues no Rio não é fácil. Fazemos alianças e parcerias a todo tempo. Treinamos nosso pessoal para que trabalhem com amor, pois com amor atendemos nossos clientes. O resultado se reflete nas notas que recebemos dos mesmos na internet. Nosso staff hoje tem nota 90% o que é bem bom! No fim achamos que quem trabalha conosco é quase um viciado em Ace.Hostels. Os que já foram sempre voltam para nos visitar. E quando visitam nunca perdem o habito de abrir uma porta, cumprimentar um cliente com um sorriso. Sim, conquistamos nosso staff para conquistar nosso cliente final! Em sete anos, nenhum processo na justiça! Se pudéssemos retornar ao passado, faríamos muitas coisas diferentes, mas foi com os erros que cometemos que aprendemos a trabalhar e o que é melhor a sobreviver tirando recursos para a nossa subsistência e para a melhoria da qualidade de vida de nossos funcionários e daqueles que nos cercam. Ademais, além de termos nossa consciência ecológica o tipo de cliente que lidamos nos ajuda a manter um meio ambiente mais limpo, porque diferentemente dos hotéis toalhas de banho/rosto não são trocadas diariamente gerando gasto de água, poluição através dos rios pelo uso de detergentes, etc. Muitos clientes não querem que as mesmas sejam trocadas, pois isso ajuda a degradar o planeta.
E falando agora com o coração nenhum negócio dá certo se não estiver abençoado por Deus. Quando eu queria ser rica o dinheiro fugia pelos meus dedos, hoje que não corro mais atrás de dinheiro, ele é quem corre atrás de mim. Da minha parte, tem a dedicação, a persistência, a paciência em lidar com as frustrações do dia-a-dia, a alegria de poder fazer o que quer e o que gosta e as vezes trabalhar até de pijamas! Hoje eu realmente sou a Rainha dos Quartinhos!
O planejamento para o futuro fica no alvo de ter 800 camas para 2014/2016 época da Copa e das Olimpíadas. Hoje estamos em 140 e em busca de ampliação e como somos flexíveis e nos adaptamos a qualquer mudança que surja pela frente, o sucesso é certo!


Por Márcia Cristina Cordeiro Gonçalves

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